Abril 06 2009

Para toda a Família 3485, em especial para o 2.º Grupo de Combate.

 

Agradecimento

Ao camarada e Amigo Carlos Alberto Santos, pelo empenho dedicado à Família 3485. Sem o seu empenho, nunca poderia ter o prazer de vos legar estas pobres palavras.

 

À memória do Vinhas (enfermeiro), meu camarada de grupo de caserna.

À muito que partiu para a viagem sem regresso,

Onde estiveres, recebe o meu abraço.

 

Se algum dia eu te esquecer cambatxilonda

Que o castigo seja ver-te novamente

Nem que seja com um simples olhar

À distância de uma vida!...

E se por ventura ao lerem estas pequenas memórias

Sentirem no mais íntimo de vós algo de novo

Não tenhais medo de seguir o coração!...

Mesmo que ele vos leve pelo caminho das lágrimas!...

 

Foi num dia de sol do mês de Julho de 1973, que nos embrenhamos na picada que leva ao Cacolo e entre o Nandonge e a baixa do Cuilo, paramos para assentar arraias na Nova Cambatxilonda, erigida no planalto que se eleva desde a linha de água (com fama de jacarés), e a parte sul da velha aldeia.

Feito o reconhecimento, e depois de dar as boas vindas à entidade oficial local, Soba-Mutambuleno, começaram os preparativos para instalar o segundo grupo de combate, filho de uma família fraterna e temerária, a quem um dia alguém ousou dizer: “ELES DIRÃO DE NÓS!” e disseram sem dúvida no fim da nossa missão, que foi nesta sanzala e noutras onde estiveram outros filhos da mesma família, que todos com espírito de sacrifício e empenho, souberam honrar a sigla que carregaram nos mais belos anos da sua juventude, e que por isso marcaram a diferença.

Mas, desviando-me desse trilho mais sentimental, direcciono as minhas memórias para a parte mais técnica, que consiste na montagem do acampamento.

Assim, feito o levantamento topográfico pelo grupo de comendo, começamos a construção do edifício (caserna) que nos havia de albergar por alguns meses. O projecto desenvolvia-se em U, e a sua estrutura assentava em finos toros de madeira (matéria-prima que tínhamos à mão com abundância).

O alçado principal destinava-se ao maior número de pessoas, melhor dizendo “caserna”. O alçado lateral direito, visto do Torrião da água era a mansão dos graduados alferes e furriéis milicianos, e o alçado lateral esquerdo, visto do mesmo ângulo, era o posto de rádio, a enfermaria, e o repouso desses dois operadores. De referir que as paredes à tardoz de todos os alçados, compostas por paus, lianas e capim enlaçado, desenvolviam-se em empena cega (não existiam quaisquer tipos de vãos) por uma questão de segurança.

Mais tarde haveríamos de mudar de instalações para uma casa já construída no ocal e com projecto arrojado para aquela localidade. Tratava-se de um edifício, que segundo os rumores da época, seria para albergar a O.P.V.D.C.A.

O outro edifício existente e do mesmo naipe de construção, era a enfermaria que dava apoio à população local e à população do Namdonge.

Ora, acabado de vos mostrar o projecto fiel do local e já com as telas finais à vista, parto para o tema fulcral que nos levou ao Cambatxilonda: A PSICO.

Assim, as linhas orientadoras para esta missão, partiam, obviamente do topo da hierarquia do grupo, Alferes António Boavida (com a sua postura altiva e que de vez em quando mostrava o seu sentido de humor ao chamar ao Lopes de Terras do Bouro – o Bixarro), coadjuvado pelos dedicados seguidores Furriel Gonçalves, (moreno, sotaque algarvio e aquele jeito desajeitado que punha no andar e no correr), o Furriel Ferreirinha, (sotaque alfacinha, brincalhão e sempre com um ar de gingão) e o Furriel Oliveira, (pele clara, que carregava uma manta de cabelo ao peito e que esperava sempre com uma paciência paternal, para ser o último a usar o chuveiro e que era da terra do Rafael Bordalo Pinheiro). Era sem dúvida uma equipa de comando de excelência. Convosco aprendi a crescer.

 Ora, formado o grupo para receber instruções e as distribuições de tarefas, ficou assim ordenado: o Silva, O Meirinhos e o Brás ficavam responsáveis pelas equipas que iriam chapear as palhotas da nova sanzala e outras tarefas afins. O Vinhas ficava com a tarefa de curar as maleitas, o Esteves, além de fazer o sitrep diário na área das transmissões, ficava com o pelouro do ensino e o Costa, atarracado e sempre de mal com o mundo, seria o cozinheiro, mais tarde substituído pelo cabo Brás.

Vivíamos os dias intensamente e com o fervor de quem tem vinte anos.

A escola absorvia-me boa parte do meu dia, mas ainda sobrava tempo para de vez em quando procurar refúgio para baixar a tensão numa pequena palhota (três passos ao quadrado), desgarrada e cravada na franja do talude que dava para Cambatxilonda antiga. Aí esperava-me o remédio para a hipertensão: mulher de cerca de trinta anos de idade, alta, magra, peitos já tombados pela idade e com rosto que denotava tristeza. Ao lusco fusco era a hora por mim marcada para o encontro e ao sentir-me por perto, a pobre mulher arrotava duas a três vezes e ao entrar na porta meia aberta, murmurava sempre as mesmas palavras “Chindelo Canapemexinge”. Depois, depois era África em todo o seu esplendor.

 

E se mais Leste houvesse mais se conquistava.

 

Ao desenterrar no Planalto do passado as minhas memórias, isto que hoje vos dou é uma simples amostra dos meus passos nessas paragens.

Preparai-vos.

E como dizia o mestre das palavras Luís Vaz de Camões, numa das suas canções.

“A Água do Mar em tão pequeno vaso”.

Nem eu delicadezas vou contando com o gosto do louvor mas explicando puras verdade já por mim passadas.

Um abraço do camarada – amigo e sempre leal. Esteves (nosso manel).

publicado por Manuel Esteves às 12:25

Parabens Esteves!!!BOA!vamos abrir novas picadas para que a desdita verdade incomode a quem nos roubou a juventude.
um abraço do Carvalho
paragemleste a 6 de Abril de 2009 às 16:39

Convosco, continuo a sonhar... e percebo, que para alegria de muitos, ainda vemos o mundo desta forma!
Esteves, agradeço as tuas palavras, parabéns pelo teu texto, e fico ansioso pelo próximo tema.
Vou aproveitar o teu blog para lançar um muito obrigado a todos quantos, com maior ou menor regularidade, nos têm honrado com o prazer e a importância da sua visita.
Carlos Alberto Santos
Alto Chicapa a 6 de Abril de 2009 às 23:57

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