Abril 20 2009

Os dias, todos iguais, seguiam a ordem do tempo, mas o ribombar do trovão na tarde abafada, seguido de outro maior que trazia o raio que partiu em três a antena “dipólo” (antena de longo alcance), instalada por mim entre o torreão e a caserna para os meus sitreps diários com o chicapa, marcou a diferença desse domingo no Cambatxilonda.

Como sempre tínhamos acordado aos primeiros beijos do sol, que nos trazia vida e acalmava o espírito e ao som da grafonola do Acácio Alves Pena, mais conhecido por “cóna”, alcunha que lhe ficou, por não ser capaz de acabar uma frase, sem por a “cóna” no meio. Presenteava-nos sempre com as mesmas duas canções, ao ponto de passados todos estes anos, ainda ter gravado na memória as repetitivas cantigas.

‘Inda o sol não mostra o dia, já nos troncos do choupal da velha estrada aldeã, o rouxinol desafia a toutinegra real que espera a luz da manhã.

Quando à linda luz do sol, ouço o meu amor cantar com sua voz feiticeira, julgo ouvir o rouxinol numa noite de luar, junto à fontal da ribeira.

Quem me dera possuir a voz que o rouxinol tem sem ter outra que a afronte, havia de conseguir entreter-me com o meu bem na ribeira junto à fonte.

Oh! Pena, arranja outra, é sempre a mesma cantiga (coro geral).

Já vos vou pôr a outra “cóna”, pegai lá.

Do poial da tua porta uma pedra queria ser, para quando tu me pisasses eu ainda te agradecer.

Viver ali rente ao chão ignorado e mesquinho como qualquer pobrezinho que a um portal pede pão.

Seria humilhação, podes pensar e dizer, mas como querer é poder o resto pouco me importa.

Do poial da tua porta uma pedra queria ser.

Também eu cantarolava à época uma canção de embalar, e que pelos vistos também ficou gravada na memória dos camaradas do grupo. Há uns quatro anos atrás, ao comprar um carrito novo, aventurei-me na companhia da minha mulher para lá do Marão, à procura dos camaradas perdidos. Percorrendo as terras onde os lobos uivam, fui encontrar em Bragança o Manuel João Brás “transmontano de sete costados”, que me franqueou a casa e mesa e que foi o guia para a descoberta do camarada João Alberto Gonçalves (Lourinho) em Parada, do Francisco Ribeiro Silva “que continua com ar de bom moço” em Constantim e o sempre “zangado” José Abílio Meirinhos em Miranda do Douro.

Com a lonjura de trinta anos, dois minutos chegaram, para nas primeiras palavras fazermos o reconhecimento e logo de seguida darmos aquele abraço já com uma lágrima à mistura.

O Meirinhos incrédulo como sempre não aceitou ser eu o Esteves de transmissões. Teimava que o Esteves era magrito e até parecia mais alto. “Ouça lá eu até acho que o Esteves há-de ter mais cabelo que vossemecê e, olhe eu só acredito que vossemecê é o Esteves se cantar uma cantiga que cantava sempre quando ia para a escola no Cambatxilonda”. Fixei nele o meu olhar e tossi para desimpedir a laringe de um pigarrito, que julgo ainda ser oriundo dos cigarros que há cinco anos deixei e já com a garganta afinada cantei:

Eu não sei como te chamas Oh Maria Faia!

Nem que nome te hei-de eu pôr.

Oh Maria Faia Oh Faia Maria

Cravo não que tu és Rosa

Oh Maria Faia!

Rosa não, que tu és flor

Oh Maria Faia, Oh Faia Maria.

Antes do último refrão já o Meirinhos tinha direccionado o seu olhar para uma oliveira que lhe ficava à esquerda, talvez para disfarçar um brilho diferente que assolou o seu olhar e foi ganhando coragem para dizer: Agora sei que você é o Esteves das transmissões. Tomei a dianteira e dei-lhe um abraço e de seguida num gesto maquinal passou a mão pelas algibeiras das calças, talvez para ter a certeza que tinha consigo a carteira e disse “Esteves e Brás vamo-nos lá a beber um copo e comer uns amendoins”. Lá passamos parte da tarde falando de tudo e de nada, mas acima de tudo falando de nós à distância de trinta anos.

O Brás acompanhou-me sempre nessas andanças, e à noite regressava-mos sempre ao seu lar para jantar e dormir numa casa acolhedora e uma família maravilhosa.

E foi numas dessas noites de frio de Bragança, aquecendo-nos depois do jantar com castanhas e jeropiga, que a alma se abriu e como o sono tardou viajei até Cambatxilonda, até à minha Cambatxilonda e num instante lá estava eu a caminho da escola. Nesse dia cheguei um tudo-nada atrasado, já os meus pupilos me esperavam e ao dar-lhes os bons dias, reparei que a turma estava diferente, parecia comprometida. Os olhos fixos no quadro, fazia adivinhar algo de anormal. Ao fazer a chamada, a Zélia Licateno não respondeu e no fim perguntei à turma pela Zélia. A resposta foi um silêncio sepulcral.

A Zélia Licateno era uma menina de 12 a 13 anos de idade, que a Mãe Natureza moldou com os mais belos adornos e que no seu sorriso largo irradiavam manhãs de puberdade a florir.

Interroguei a Fátima Sangulá, companheira de carteira, melhor dizendo companheira de banco, uma vez que as carteiras eram simples toros de madeira apoiados nas extremidades em forma de V e a resposta foi o silêncio. De seguida foi inquirido o meu fiel lavador de roupa Germano Salopema, que com evasivas ia respondendo “num sabe… o Zélia… jura…”, Não me venhas lá com essas juras porque eu sei que vocês estão a mentir e que sabem o que aconteceu à Zélia, é assim ou não é Cândido Muxingueno? E o miúdo com a ingenuidade dos seus oito anitos, acabou por confessar:

“Professor a Zélia Licateno já está nos casar e agora já não vir mais no escola”. Nesse preciso momento senti um suspiro geral de alívio em toda a turma, ficaram mais libertos e a aula continuou como sempre.

Os dias iam passando e a Zélia não voltou mais à escola. Via-a com frequência na sanzala, mas não queria interferir num assunto que era tão próprio daquela comunidade. Mas, um dia, junto ao trilho da lavra queimada e já quando a lua incendiava a aldeia a Zélia Licateno apareceu-me ao caminho com o peito a arfar de aflição e murmurou: “Steve, o marido foi no ixe (peixe), já não está no casa esta noite”.

Um turbilhão de pensamentos assolou o meu espírito, secou-se-me a boca, estalaram-se-me os dedos e olhando o infinito, enganando-me a mim mesmo, disse num tom ríspido e forte “Não”!..

A moça não teve uma só palavra, virou-se num gesto submisso e caminhou na direcção poente da sanzala.

Afogueado, dei meia dúzia de passos largos e chamei por ela. A rapariga voltou-se, tinha os olhos húmidos de chorar e eu também não fui capaz de soltar uma palavra, virei-me e segui o trilho da lavra sem destino fixo.

Ao dizer Não, quando todo o meu corpo pedia Sim, honrei o compromisso que tinha assumido ao aceitar a missão de ensinar. Afinal tratava-se de uma das meninas dos meus olhos.

Sempre que liberto a alma e desenterro as memórias, aperta-me o coração, como se abarcasse o tempo nas palavras que vos dou.

Um abraço do Esteves ( nosso manel).

 

publicado por Manuel Esteves às 22:38

Oh manel...
Um abraço.
Carlos Alberto Santos
Alto Chicapa a 20 de Abril de 2009 às 22:53

Manuel Esteves e Pereira Olinda em 1909 agradecido o seu dedicado oficial da república e filho 1927-8255 Manuel Esteves
manuel684 a 15 de Outubro de 2009 às 18:59

É dsito que eu gosto Esteves!? está belo. Pequenas passagens que nos tornam GRANDES.
Um abraço do Carvalho
paragemleste a 21 de Abril de 2009 às 12:19

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